Estava olhando em meus artigos que tenho arquivado e achei esta entrevista de um nadador brasileiro de muito sucesso chamado Pedro Monteiro. Apesar de antiga, ela traz a nossa reflexão varios aspectos da vida de um nadador.Fonte: Blog Raia Quatro News
Essa entrevista com o ex-nadador brasileiro Pedro Monteiro foi publicada na edição impressa do Swim It Up! de dezembro de 2001. À época, Pedro se preparava para a disputa do Mundial de Moscou, que aconteceria em abril de 2002. É uma entrevista exemplar, para ler e refletir sobre o sacrifício de chegar a um objetivo. Algumas partes que julguei interessantes estão em negrito. Boa leitura!
Pergunta: Quanto tempo você ficou nos EUA? Foi uma decisão apenas atlética ou a parte acadêmica influenciou?
Pedro: Morei nos Estados Unidos de 91 a 2001. Fui terminar o colégio com a minha família porque minha mãe foi fazer um curso em Harvard. Fomos todos para Boston, onde moramos juntos por seis meses. Depois eles voltaram e eu fiquei com uma família americana para terminar o colégio e treinar. Queria muito fazer faculdade nos Estados Unidos e continuar treinando por lá. Quando saí do Brasil em 91 estva quase parando de nadar. Queria jogar futebol mas quando fiz o teste no colégio me botaram no time B aí eu vi que o negócio ia ser difícil. Joguei por um tempo mas também comecei a nadar de novo. Fiquei uns seis meses sem nada nenhuma com natação.
Faltava aos treinos direto, matava sempre e não fazia força. Quando meus pais voltaram para o Brasil e eu fiquei sozinho, comecei a dar o maximo de mim nos treinos. Me matava todo dia. Como era moleque e estava produzindo hormônios de crescimento como um maluco, tava sempre novo no dia seguinte. Assim fui melhorando e comecei a me empolgar com a tal da natação. Fui pros EUA fazendo 2:20 de 200 borboleta (tinha 16 anos), aos 17 baixei meu tempo para 2:11 e no último ano lá fiz 2:05. Fui pra faculdade no "maravilhoso" estado de Ohio por dois motivos: primeiro a faculdade era muito boa e segundo porque senti muita confiança no técnico e no programa. Tive um começo meio complicado na faculdade, fiquei dois anos sem baixar muito meu tempo em jardas. No meu terceiro ano após ter ficado no Brasil por seis meses treinando com o Luiz Ricardo, melhorei bem meus tempos e bati o recorde sul-americano em dezembro de 96 (1:56.99, Santos, piscina de 25m), recorde que foi quebrado pelo Kaio (Márcio) no Finkel e que pretendo recuperar em Moscou em abril quando também quero ficar entre os oito do mundo. Ah sim, em 97 obtive minha melhor colocação em Mundiais: fiquei em oitavo no Mundial de Gotemburgo.Pergunta: E a saudade? A família te deu suporte, mesmo assim o que fazia nas horas de desespero? Quanto tempo ficou direto sem vir ao Brasil?
Pedro: Senti muitas saudades da família nos primeiros meses, mas estava tão ocupado com colégio e treinos que tinha pouco tempo para pensar. Tive vários amigos (e suas famílias) que me ajudaram muito. Por mais de um ano eu tinha que acordar às 4:30 da manhã, pegar a bicicleta, pedalar meia hora até um pedágio que tinha em Boston para esperar alguém do clube de natação passar pra me dar uma carona. Largava a bicicleta lá e ficava esperando. Muitas vezes estava nevando e eu caía da bicicleta. Um frio brabo! Algumas vezes fui parado pela polícia que queria saber o que um maluco tava fazendo antes das 5 da manhã sentando perto de um pedágio olhando pros carros (muito poucos) passarem. Uma vez o guarda fez questão de esperar até alguém do time passar pra ter certeza que eu não estava vendendo drogas ou sei lá o quê... Cheguei a ficar quase três anos sem vir ao Brasil. Quando tinha muita saudade, ia parar num restaurante brasileiro que tinha em Boston chamado Café Brasil. Tinha também uma brasileira que vinha arrumar a casa uma vez por semana. A menina era tudo de bom e nesse dia eu voltava mais cedo do colégio. Era o único contato com brasileiros que eu tinha. Na faculdade foi pior ainda. Não tinha ninguém nos primeiros anos e nem pensar em comida brasileira em Ohio...
Pergunta: Depois da Universidade você procurou um esquema na USC (University of South Carolina) com o renomado Mark Schubert, voltou a treinar em Ohio com seu ex-técnico, depois Coral Springs com Michael Loberg e acabou no Rio. Esta busca da melhor equipe, técnico, lugar, não deve ter sido fácil. Como reagir nestes momentos?Pedro: Depois da faculdade fui treinar na USC com o Schubert. Treinei super bem no começo e tava dando uns tempos muito bons. Daí veio a tal da musculação. Comecei a malhar porque o Schubert achou que eu precisava (nunca tinha malhado antes) porem isso foi muito ruim para mim. Por algum motivo continuei malhando até depois da seletiva (olímpica) de 2000 com o mesmo sucesso (nenhum). Porque eu não parei antes eu não sei. Depois da USC voltei pra Ohio onde fiquei por seis meses antes de ir treinar com o Michael em Coral Springs. Em agosto de 2000 voltei pro Brasil pronto pra começar a trabalhar e ir largando a natação aos poucos. Comecei a trabalhar em Furnas em setembro do mesmo ano e continuei treinando duas vezes ao dia. Treinava das 5:30 da manhã às 7:30, trabalhava de 8:30 às 17 e treinava de novo de 17:30 às 19:30. Chegava em casa às 20, fazia um alongamentozinho, jantava e desmaiava às 21:30. Minha vida foi assim no tempo que larguei Furnas (8 meses). Larguei Furnas pra trabalhar no mercado financeiro, em um banco. Lá o horário de trabalho era bem mais puxado e fui forçado a só treinar de manhã, de 6 às 8. Trabalhava das 9 às 19 e fazia um MBA em Finanças e Mercado de Capitais das 19:30 às 22. Nesse esquema fiquei em terceiro na Copa do Mundo fazendo índice pro Mundial de Moscou. Com o Mundial em vista, meu recorde sul-americano quebrado e doido pra voltar a treinar direito, larguei o emprego e fui obrigado a largar o MBA e voltei a me dedicar 100% à natação. Uma decisão que todo mundo (especialmente meus pais) achou maluquice mas que eu tomei completamente consciente. E estou adorando. Comprei um vasa-trainer (aparelho para simular o nado fora d'água, uma espécie de "borrachinha" mais avançada). Tirei a bicicleta da garagem, comecei a fazer yoga e voltei a treinar 2 vezes por dia. Procurei o Departamento de Nutrição da UERJ pra fazer um trabalho sério e estou adorando a vida. Estou nadando pelo clube que nado desde 1981 (tenho 20 anos de Flamengo, sou o atleta mais antigo do clube de todos os esportes) com muito orgulho. Estou me preparando pra disputar meu primeiro sul-americano e principalmente o Mundial.
Pergunta: Por duas vezes ficou perto da seleção olímpica. Logicamente este deve ser seu sonho ainda. Existe um planejamento para chegar a Atenas?Pedro: Em 1996 senti muito ter ficado de fora (ele fez 2:01.30 e o índice era 2:00.65). Muito mesmo. Fiquei alguns meses em casa batendo na parede com os dedos o intervalo de tempo pelo qual eu não fiz o índice. Acho que com mais alguns meses de treino e descanso (tempo entre a seletiva e a Olimpíada) poderia ter ido muito bem em Atlanta. Falando em seletiva, acho um absurdo ter uma seletiva numa piscina como a do Fluminense (como foi em 1996), com raias quebradas e tudo mais. Em 2000 não fiquei tão chateado assim porque já vinha nadando mal há algum tempo e sabia que só por um milagre faria o índice. O milagre não aconteceu e eu fiquei de fora. O que me chateou mais em 2000 foi notar que o tal critério "totalmente rígido" que havia sido estabelecido em relação ao índice mostrou-se não tão rígido assim. Acho que a Fabíola mereceu muito ter ido a Olimpíada e fiquei muito feliz por ela e pela natação feminina do Brasil, mas não pude deixar de sentir uma certa indignação... Por que abrir mão da rigidez agora e não há 4 anos atrás, quando não só eu mas também o Angelotti ficou tão perto do índice em uma prova como o 1500?
Pergunta: Agora foi a vez do trabalho ficar para trás ao intensificar os treinamentos para o Mundial de Moscou. A pergunta básica é: por que vale a pena? Dinheiro? Satisfação pessoal ao conseguir um certo tempo/resultado? Objetivo?
Pedro: Eu adoro nadar. Adoro a sensação de estar um pouco melhor a cada dia, de ter um nível alto de controle sobre o meu destino. Na natação, como quase todo esporte individual, as variáveis que te levam ao sucesso são as mais controláveis. Tudo depende mais de você. É óbvio que a infraestrutura ao seu redor é fundamental para seu sucesso (técnico, programa de treinamento, apoio fora d'água, parte nutricional, etc.), mas o mais importante é o que você opta por fazer a cada dia. A experiência que eu adquiri com todos esses anos e a vontade que eu tenho de fazer um trabalho legal são um diferencial significativo na natação. Não nado pelo dinheiro (ainda bem, porque senão teria parado há muito tempo!). Tenho sorte de ter pais que sempre me ajudaram e me apoiaram nas minhas decisões (inclusive as que consideravam malucas). Nesse período que estava trabalhando e nadando consegui juntar um dinheirinho que pretendo usar enquanto estiver só treinando. Quase tudo que ganho invisto de volta na natação em suplementos, equipamento (como o vasa trainer), alimentação e outras atificades como yoga, rolfing (um tipo de massagem), ginástica natural, livros... Ainda moro em casa, o que representa um alívio financeiro significativo. Eu nado pelo desafio de superar obstáculos pré-estabelecidos. Nado por aqueles momentos de satisfação absoluta que todo esportista já sentiu. O momento da superação individual. Ele pode ocorrer durante um treino, em uma competição merreca ou em um campeoanto mundial. Um momento que o dinheiro não pode comprar. Não quero dizer que o dinheiro não traz felicidade, acho que se não traz ajuda muito, mas esses momentos ele não compra. Esses momentos são fruto de muito "esforço inteligente". Talvez seja o que o Michael Jordan chama de "zone". Cada um experimenta essa tal de "zone" de acordo com suas características e limitações mas acredito que a satisfação é parecida. Tudo parece que se encaixa. É difícil de explicar, mas é mais ou menos por aí. São momentos em que eu sinto que aprendi a nadar golfinho antes de andar, tal é o prazer que tenho ao fazê-lo. São momentos difíceis de se substituir. Em relação aos planos para o futuro, no momento não os tenho. Todos os planos que tracei pra minha vida terminam em abril. Depois daí, o que acontecer até lá dirá o que virá depois. Meu grande sonho é participar de uma Olimpíada. Quem sabe?!
Epílogo: Depois dessa entrevista, muita água ainda iria rolar na carreira de Pedro. Naquele Mundial de 2002, terminou na 13ª posição nos 200 borbo. No mesmo ano, ficou em 8º nos 200 borbo no Pan-Pacífico de Yokohama, a míseros 2 centésimos do índice para os Jogos Pan-Americanos e Mundial do ano seguinte.
Na última seletiva, em fevereiro de 2003, no Rio de Janeiro, Pedro não alcançou o índice na primeira tentativa, mas conseguiu na derradeira (1:59.44) e provavelmente experimentou ao extremo o que ele definiu de "zone" na entrevista acima! No Mundial de Barcelona, terminou em 13º lugar e no Pan de Santo Domingo foi medalha de bronze com o melhor tempo da carreira (1:59.38). Pedro não conseguiu o objetivo final de sua carreira, o índice para os Jogos Olímpicos de 2004. Além dos inúmeros obstáculos já citados na entrevista acima, um deles o acompanhou por cerca de dez anos, até o final da carreira, e o atrapalhou na preparação para a seletiva olímpica daquele ano: dores crônicas no ombro, fatais para um nadador de borboleta. Hoje, Pedro pode ser ouvido nas transmissões de campeonatos de natação na SporTV como um muito bem informado comentarista esportivo.
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