quarta-feira, novembro 29, 2006

Carta Olímpica

Agosto de 1932. A equipe japonesa de natação chega aos Jogos Olímpicos de Los Angeles disposta a romper a tradicional superioridade dos norte-americanos, que mandam neste esporte praticamente desde 1908. A decisão dos nadadores que formam esta equipe; o deslumbramento de representar o seu pais; a necessidade de conseguir a vitória, não tanto para eles como para o seu país, ficam perfeitamente definidas na carta escrita pelo nadador que, dias depois, ia se sagrar campeão olímpico dos 1.500m.livre, Kusuo Kitamura. Na carta, ele explica as dúvidas e os temores que sente antes da prova final, apesar de que, afirma, “o meu treinador crê que não posso perder esta prova, e, por isso, creio ainda mais na minha vitória”. É a carta de um rapaz que dois meses depois desta vitória faria os15 anos, que expressa humanismo em cada uma das suas letras, em cada uma das suas palavras, mas que também nos fala da tradicional veneração e respeito que os japoneses sentem por sua pátria; por seus maiores; por seus pais, dirigentes, treinadores, assim como das acusadas diferenças entre a civilização oriental e a ocidental (é preciso ter em conta que se trata de uma carta escrita em 1932; em 2006, possivelmente não seria a mesma). Kitamura e os seus companheiros escreveram, naqueles Jogos do 1932, uma página que é parte da historia da natação mundial, e que algum outro dia vamos relembrar para todos os nossos leitores. Cremos que, com motivo dos Jogos Olímpicos de Atenas, é interessante transcrever integramente este entranhável documento tal e como apareceu no boletim do Clube Natação Barcelona no mês de março de 1933, e que agora traduzimos, do catalão, para os aficionados brasileiros.
Meu querido pai:
Tenho a esperança que esta carta chegue rapidamente às suas mãos, dado que o Correio de Yokohama vai sair de São Francisco em poucos dias.
O nosso muito estimado treinador crê que eu poderei conseguir com certa facilidade o titulo olímpico, embora a minha opinião pessoal é que ele diz isto unicamente para me dar ânimos para a luta.
Sei que não sou mais do que um rapaz; que a sua esposa, a minha mãe, me trouxe ao mundo não faz mais que 15 anos. Não sei se sou bastante forte para poder me comparar com o meu amigo e compatriota Makino; com o francês Taris; mas sobre tudo com o norte-americano; sim, com o americano! Você nem se imagina até que ponto eu me sinto débil; como me parecem miseráveis e deploráveis as minhas performances, e o pouco que eu confio no meu possível êxito, quando penso no americano. Ele faz, pelo menos, dois como eu. Está sempre a rir, e não pensa, certamente, na prova que vai disputar. Eu, pelo contrário, não posso tirar nem por um momento do meu pensamento o que pode passar.
Ah, se você pudesse estar aqui, meu querido pai, nestes momentos difíceis, que serviço inapreciável não me faria, com seus conselhos e seu amor!
Os meus amigos são, como bem pode compreender, muito amáveis comigo, e não é a disciplina a qual nos submetemos de bom grau que põe uma sombra na minha vida! Oh, não! É que eu preciso de vocês todos; de você, da minha mãe, e também das irmãs que você me deu. É que me falta aqui o ambiente da nossa casa, com o cuidado tão especial com que sempre nos envolveram a todos nós. Só um pensamento me dá forças e ânimos, e é que combatemos para a glória do nosso país, e que, se sairmos vencedores, o nome do Japão ressonará até os cantos mais recônditos da Terra.
O que você me escreveu a este propósito na sua ultima carta me fez refletir muito, e me permitiu submeter o seu conteúdo ao nosso muito querido dirigente. Este reuniu depois todos os meus companheiros, para os aconselhar a seguir os seus admiráveis conselhos. Eu estava, não é preciso dizer, muito orgulhoso e satisfeito, vendo como eram apreciados os seus conselhos.
Quando lhe disse que sentia saudades da nossa casa, não é que nos faltem coisas para fazer agradável a nossa vida aqui, que está baseada em sua maioria no trabalho dos treinos, embora isto não nos prive para ter os momentos atrativos e interessantes que pode nos oferecer este país, tão diferente do nosso.
As pessoas, sobretudo as mulheres, têm aqui uma forma de viver muito particular. Para você, meu querido pai, que viajou por todo o mundo, as pessoas da Europa e América não tem nada de especial. Mas para nós, que nunca saímos do nosso país do Sol Nascente, é outra coisa. Particularmente, somos pegos surpreendidos pela “tenue” graciosa e “sans façon” (em francês no original) das mulheres. Você vai me dizer que ainda somos demasiado jovens para podermos permitir esta observação, mas quero me apressar a lhe dizer que acho muito mais favorável os costumes da nossa casa, com a vida tranqüila da minha mãe, e a disciplina das minhas irmãs.
Chegou a hora de ir dormir, meu querido pai; mas antes que o sonho me dê forças que tanto vou precisar amanha para a prova, vou pedir aos nossos Deus, tal como você me ensinou, que dê força, coragem, e firmeza aos meus músculos.
Amanhã, depois da prova, acrescentarei algumas linhas à carta. Termino por hoje, não sem lhe pedir que tenha cuidado do meu cão, e que dê de comer aos meus peixinhos coloridos, tanto quanto necessitem. Não gosto de o incomodar com estas pequenas coisas, mas já sabe você o quanto eu gosto destes animais.
O meu desejo se realizou!. Nem posso explicar a alegria que sinto, não só por poder comunicar a notícia a você, que, seguramente, já deve saber, senão, mais que nada, para poder dizer pessoalmente que consegui o título de campeão olímpico dos mil e quinhentos metros. O nosso querido dirigente envia suas saudações, e me autoriza a dizer que no próximo ano vou poder me dedicar muito mais tempo aos meus estudos de inglês e das ciências, assim como dos outros cursos, porque não vou ter tanta necessidade de treinar.
Não pode imaginar o quão feliz que me considero em voltar para casa. Não me esqueço que você prometeu me dar um presente no caso de ganhar. Tenho pensado desde faz tempo, e é por isso que posso dizer que as minhas preferências se encaminham para uma motocicleta, no caso, naturalmente, que você não me julgue demasiado jovem para este desporto. Também, se puder ser, gostaria de aumentar o meu aquário com um par de aqueles peixes tão engraçados que temos admirado juntos tantas vezes, mas que achávamos demasiado caros.
Termino esta carta, meu querido pai, porque tenho o tempo curto para não correr o risco de perder o barco de São Francisco.
Receba o meu abraço mais humilde.
Kitamura
Não conseguimos saber se Kitamura conseguiu a motocicleta, nem os peixinhos coloridos. O que sim podemos dizer é que Kitamura sobreviveu à II “Loucura Mundial”, e anos depois foi escolhido Presidente da Federação Japonesa de Natação, gozando durante toda a sua vida do respeito dos seus compatriotas como um homem que serviu a sua pátria desde o desporto.


(Por Guillem Alsina)

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